
Enquanto Paris amanhecia cinzenta, sob uma chuva persistente que escondia o topo da Torre Eiffel, a Chanel apresentou um contraste preciso e simbólico. No interior do Grand Palais, Matthieu Blazy conduziu sua estreia na alta-costura da maison como um exercício de luz, leveza e depuração estética.
A cenografia, composta por árvores cor-de-rosa e cogumelos monumentais, construiu um ambiente onírico sem recorrer ao excesso. O cenário não buscava impacto imediato, mas instaurava um estado de suspensão, preparando o terreno para uma coleção que se afastou da grandiloquência habitual da alta-costura e se aproximou de uma ideia mais íntima e sensorial.

Blazy partiu de uma pergunta essencial. O que torna a Chanel, de fato, Chanel. A resposta não veio por meio da repetição de códigos óbvios, mas pela desconstrução cuidadosa de sua própria história. O estilista propôs uma reconexão entre criador, ateliê e usuária, princípio central da alta-costura contemporânea.
Esse gesto se materializou de forma literal. Cada modelo incorporou ao visual um elemento pessoal, como datas, palavras, iniciais ou símbolos de sorte, bordados manualmente pelo ateliê Lesage. A peça não se impunha ao corpo. Ela dialogava com ele.
A leveza foi o eixo técnico e conceitual da coleção. O desfile abriu com um tailleur Chanel reinterpretado em musselina de seda ultrafina, tão leve que parecia flutuar. O mesmo tecido apareceu em peças que simulavam jeans, em coletes minimalistas e até em versões da bolsa 2.55, reduzida ao essencial e suspensa por suas correntes.

Textura e movimento surgiram com precisão silenciosa. Tweeds receberam plumas, fitas ondularam nas barras, bordados florais se misturaram a colagens de organza com acabamento deliberadamente cru. Cada detalhe exigia proximidade. Nada era feito para ser compreendido à distância.
O encerramento rejeitou o ritual tradicional da noiva de alta-costura. Sem véu, sem cauda, Bhavitha Mandava entrou com uma camisa oversized e uma saia curta coberta por milhares de lantejoulas de madrepérola em forma de pétalas. Nas costas, quase oculto, um pássaro de cristal e pérola reforçava o tema da liberdade como valor central da coleção.
A trilha sonora, que mesclava Bittersweet Symphony e Wonderwall, selou o clima de leveza emocional. Não havia espetáculo forçado. Havia clareza.
Mais do que uma estreia, Matthieu Blazy apresentou um reposicionamento. Uma Chanel menos pesada, menos defensiva e mais aberta ao presente. Uma alta-costura que não se impõe, mas envolve. Que não grita, mas permanece.
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